terça-feira, 22 de agosto de 2017

Povo que cala consente, ou é reprimido às ordens de uma elite putrefacta (com histórico)

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Preâmbulo: Em 8 de Julho de 2008 corria a notícia que dá título a este espaço. Na sequência do conhecimento do facto imputado à governação de Xanana Gusmão os estudantes universitários protestaram, já então, 9 anos volvidos, estava no pómio da discórdia e do esbanjamento governamental os carros de luxo que eram comprados e cedidos aos deputados, sob condições que posteriormente os favoreciam indubitavelmente se os quisessem “comprar”. 21 estudantes foram presos nesse protesto. 

Na época os excessos policiais foram os do costume, imparáveis e ilegais. Nada aconteceu aos selvagems da polícia nem aos que os comandavam e que certamente ainda os comandam… contra o povo que contesta os excessos e abusos de poder de uma elite que tem por principio ignorar e desrespeitar as opiniões e vontades daqueles que os elegem.

O ministro da Educação de então, João Câncio, criticou os estudantes pelo seu protesto. Talvez em nome da “democracia”… Atualmente e desde há poucas semanas João Câncio está numa prisão timorense, em Gleno, a cumprir uma pena de prisão de 4 anos e 6 meses… por corrupção. Outros políticos adstritos aos poderes governativos também já foram apanhados nas malhas da justiça… por corrupção. Outros não. Xanana Gusmão também ainda não…

Tais condenações só estão a provar o que há muitos anos, após a independência do país, tem vindo a lume e é voz corrente: Alguns das elites timorenses usam práticas criminosas e corruptas que justificadamente preocupam e indignam o povo timorense. E depois não querem que existam protestos?

Em 2008 foram presos estudantes contestatários. Atualmente,  em 21 de Agosto, ontem, aconteceu o mesmo, foram presos estudantes. Como pode ser possível situações tão evidentes de má-governação (pelo menos) e abusos de poder acontecerem ao longo de tantos anos repetidos sem que a agitação social, a indignação, não venha à tona. Povo que cala consente, ou é reprimido às ordens de uma elite putrefacta. Justificação para o que aconteceu ontem em Díli? Mais parece que saiu o tiro pela culatra e que os estudantes universitários não vão entregar de mão-beijada o ouro ao bandido - como soe dizer-se.

A seguir, se continuar a ler, o referido assunto na época.

Mário Motta | Timor Agora

Governo Xanana Gusmão esgota Fundo de Petróleo e prende estudantes (histórico)

Tomas Freitas [*]

Na segunda-feira 7 de Julho, às 9 da manhã, aproximadamente 100 estudantes efectuaram um protesto no seu campos, a Universidade Nacional de Timor Leste, contra os membros do parlamento. Os estudantes não estão satisfeitos com os deputados, que estão prestes a comprar carros de luxo para si mesmos. Os estudantes protestaram pacificamente ostentando faixas, mas 21 deles foram detidos pela Polícia Nacional. 

A lei timorense declara que não pode haver manifestações num raio de 100 metros de edifícios governamentais. Entretanto, os estudantes estavam a protestar no seu próprio campus. A localização do mesmo na verdade está a menos de 100 metros do Parlamento. Contudo, trata-se de um campus de estudantes, um lugar importante para a livre expressão e manifestações.

Não está claro quem emitiu a ordem de prisão dos estudantes, mas acredita-se que a ordem tenha vindo do próprio primeiro-ministro Xanana Gusmão.

Em 23 de Maio de 2008 o Conselho de Ministros aprovou a minuta final do Orçamento Intercalar de 2008. O montante total proposto é de US$773,3 milhões, a ser gasto como se segue: 59,4 milhões para salários dos 12.600 funcionários civis, incluindo polícia e forças de defesa; 240 milhões para a crise alimentar; 207,4 milhões para bens e serviços; 1,4 milhão para comprar carros de luxo para cada membro do Parlamento; 114,7 milhões para desenvolvimento de infraestruturas e 112,2 milhões para pensões e segurança social.

O governo Gusmão cortou o imposto interno de rendimento para a taxa fixa de 10% e gastou quase 30% do Fundo de Petróleo para cobrir seu défice orçamental. O Fundo de Petróleo foi estabelecido pelo governo anterior da Fretilin. Mas agora o fundo está ameaçado. A fim de ser sustentável, apenas US$396 milhões deveriam ser retirados do fundo este ano. Contudo, o governo Gusmão retirou US$290,7 milhões extras para equilibrar os preços do material de construção e assistir à crise alimentar, encarregando o seu amigo, o vice-secretário geral do CNRT, de comprar arroz em países asiáticos sem concurso.

A contínua incapacidade do governo para executar o orçamento anterior não impediu Gusmão de aumentar as dotações orçamentais. Apenas US$31,9 milhões dos US$347,5 milhões das dotações foram realmente executadas neste primeiro trimestre. A execução anterior do orçamento de transição do governo Gusmão não foi certificada pela Delloitte Company, a qual habitualmente certifica o relatório de execução do governo timorense.

As questões da compra de carros de luxo e do Fundo de Petróleo agora são importantes no país. A sociedade civil, os media e o povo timorense criticaram este orçamento, mas os académicos estão mudos porque o seu dinheiro vem do governo. Por sua vez, o ministro da Educação, João Câncio, criticou os estudantes e pediu-lhe para não usar o campus como lugar para manifestações. Ironicamente este ministro era anteriormente o responsável pelo Instituto de Tecnologia de Dili, uma das universidades do país.

As manifestações de estudantes continuam. A polícia continua a proteger a zona do parlamento e prendeu mais de 17 estudantes nesta manhã. A carga sobre os estudantes é irónica, considerando o papel chave que os estudantes desempenharam na luta de Timor Leste pela independência, um papel que o próprio primeiro-ministro Gusmão reconhecer anteriormente.

[*] Director de Luta Hamutuk, ONG progressista de Timor.

O original encontra-se em http://links.org.au/node/514

Esta notícia encontra-se em http://resistir.info/ 
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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