sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Último governador de Hong Kong diz que Londres arrisca "vender honra" em nome de negócios

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Macau, China, 26 jan (Lusa) -- O último governador britânico de Hong Kong, Chris Patten, afirmou que o Reino Unido arrisca não cumprir as suas promessas relativamente à antiga colónia e "vender a sua honra" na tentativa de alcançar acordos comerciais com a China.

Falando no programa Newsnight da BBC, na noite de quarta-feira, Chris Patten disse que o Reino Unido desiludiu "uma geração" de ativistas pela democracia.

A 01 de julho assinala-se o 20.º aniversário da transferência de soberania de Hong Kong do Reino Unido para a China, após mais de um século de administração britânica.

Londres garante que leva muito a sério os seus compromissos para com Hong Kong.

A antiga colónia britânica possui desde então o estatuto de Região Administrativa Especial da China e beneficia, em princípio, de uma ampla autonomia, consagrada no modelo 'um país, dois sistemas'.

Segundo os termos da Declaração Conjunta Sino-britânica, firmada em 1984, a passagem de Hong Kong em 1997 foi feita em troca de uma "elevada autonomia" e da garantia de manutenção de uma série de liberdades, não aplicadas na China, como de expressão, imprensa ou reunião, e de um sistema judicial independente, teoricamente até 2047.

Contudo, sobretudo nos últimos anos, os habitantes de Hong Kong têm notado uma erosão desses direitos e vindo a manifestar uma crescente preocupação relativamente à ingerência de Pequim nos assuntos do seu território.

Para Chris Patten, o Governo britânico não tem saído "manifestamente" em defesa de Hong Kong: "Pergunto o que terá acontecido ao nosso sentido de honra e ao nosso sentido de responsabilidade -- particularmente no Reino Unido. É acima de tudo uma questão britânica".

"Assinámos a Declaração Conjunta com a China. É um tratado à luz da ONU. É suposto comprometer-nos a defender os direitos de Hong Kong até 2047", afirmou.

Para Patten, o Reino Unido arrisca, portanto, colocar o seu desejo de fazer negócios com a China acima do seu compromisso para com a antiga colónia britânica.

"É tudo por razões irrisórias, ridículas", afirmou, apontando que "o argumento de que a única forma de se fazer comércio com a China é curvar-se à China em assuntos políticos é um disparate, um total absurdo".

"Estou preocupado como as pessoas estão preparadas para vender a nossa honra por alegados negócios comerciais que na verdade nunca vão acontecer. Penso que isso seria calamitoso. O que vamos nós representar para o mundo se isso suceder?", questionou o último governador britânico de Hong Kong.

Anson Chan, antiga secretária chefe de Hong Kong -- que foi 'número dois' de Patten -- expressou, por seu turno, a sua profunda preocupação para com o comportamento da China em relação à Região Administrativa Especial.

Citando o exemplo do alegado sequestro dos cinco livreiros e outros abusos dos direitos humanos, Anson Chan disse, também no Newsnight da BBC, que o próprio princípio 'Um país, dois sistemas' se encontra sob ameaça.

"Infelizmente, o resto do mundo -- particularmente a Grã-Bretanha -- prefere fingir que não vê o que se está a passar", apontou.

"Se continuarem a ignorar esta erosão constante, quando acordarem para o facto de que [a fórmula] 'um país, dois sistemas' só existe no nome, vai ser demasiado tarde", observou Anson Chan.

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