domingo, 5 de fevereiro de 2017

Escola que nasceu do sonho de jesuíta em Timor-Leste há 46 anos inaugurada em Díli

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Díli, 04 fev (Lusa) - A ampliação da Escola Amigos de Jesus, projeto de vida de um padre jesuíta que vive há 46 anos em Timor-Leste e que ensinou português na clandestinidade, foi hoje inaugurada num projeto que teve apoio público e privado.

"É um sonho que se concretiza", disse à Lusa o padre português João Felgueiras, condecorado em 2002 como Grande Oficial da Ordem da Liberdade, pelo então Presidente português, Jorge Sampaio, em reconhecimento da sua luta pela preservação da língua portuguesa em Timor-Leste.

A nova escola, hoje inaugurada no bairro de Taibessi pelo Presidente da República timorense, Taur Matan Ruak, pelo primeiro-ministro, Rui Maria de Araújo e pelo ministro da Educação, Antonio da Conceição, é um complexo de dois andares com 18 salas de aulas e diversas salas especializadas, entre laboratórios, biblioteca, sala de música e arquivos, conta ainda com uma capela.

Com ensino totalmente em português e gerida pela Comunidade Amigos de Jesus - organização civil liderada por João Felgueiras e pelo outro padre jesuíta portuguesa há décadas em Timor, José Martins - a escola terá 60 professores e alunos entre o 1º ao 3º ciclo.

Em conversa com a Lusa hoje, João Felgueiras recordou a história do projeto, que "nasceu da atividade pastoral dos padres jesuítas" durante a ocupação indonésia.

"Começou com uma espaço onde as crianças se encontravam, se uniam e tornou-se um espaço de educação, de formação. Daí nasceu o desejo de uma escola", explicou.

"Começamos com apoio a alguns alunos para irem estudar e foi crescendo. Os indonésios viam isto como uma coisa da igreja e deixavam que trabalhássemos. Nós, claro, aproveitávamos para ensinar o que era ser nação e ser povo", relembra.


Intervindo na inauguração, o chefe do Governo, Rui Araújo, recordou o papel de quem foi um "grande 'capelão' ao serviço da afirmação da identidade do povo e nação timorenses" a que deu "toda a sua dedicação e empenho".

"A escola da qual hoje inauguramos as novas instalações, é o legado da inquebrantável vontade e persistente ação educativa do padre Felgueiras, demonstrado desde o seminário de Nossa de Fátima em Dare, passando pelo Externato de São José onde tive a imerecida sorte de ser aluno desses dois ilustres jesuítas, e culminado, em 1997, num 'embrião' da Escola dos Amigos de Jesus, onde muitos timorenses desenvolveram a sua escolaridade e as suas capacidades intelectuais", recorda.

"Que este tipo de projetos educativos de excelência não se transforme em castelos de exclusivismos desnecessários de uns poucos, mas que sejam um 'oásis no deserto' dos problemas educativos que o país enfrenta, e que sejam exemplo para a educação no nosso país, uma educação que forme prepare os futuros homens e mulheres Timorenses dedicados ao serviço do Povo e da Nação, seguindo o exemplo do Padre Felgueiras", sublinhou.

Em maio de 1999 a reportagem da agência Lusa registou a génese do que seria a escola hoje inaugurada, uma casa e algumas árvores onde algumas centenas de timorenses aprendiam português, meio às escondidas.

Na altura, o padre Felgueiras recordava que houve períodos em que falar português em Timor-Leste representava quase uma condenação imediata: "Nos primeiros anos houve muitos timorenses que foram perseguidos e maltratados por terem livros em português. Houve alguns que morreram apenas porque usavam a língua portuguesa", contou na altura.

Depois da independência o sonho de João Felgueiras ganhou ainda maior dimensão e uma primeira escola, com apenas seis salas de aula - financiada como o apoio do Instituto Camões - abriu em 2008, provando desde logo ser insuficiente para a elevada procura.

O projeto da escola mais formal, pensado na Comunidade Amigos de Jesus e hoje inaugurado, foi aprovado em 2012, pensando para um terreno comprado pelos jesuítas a uma residente timorense em Díli, ao lado da primeira escola.

O padre Felgueiras pede ajuda ao Governo e o então primeiro-ministro Xanana Gusmão aprova um orçamento de 1,7 milhões de dólares, através da unidade de apoio da sociedade civil do seu gabinete, para a construção e projetos.

Um valor insuficiente para o edifício de dois andares que contou depois com o apoio de várias empresas e indivíduos que se uniram para concluir o projeto, para a compra de equipamento e para financiar o que faltava do projeto.

Uma soma de esforços a que se juntaram várias empresas em Portugal e Timor-Leste que permitiram criar o que é um dos melhores equipamentos educativos do país, e a concretizando de um sonho de um homem que dedicou a sua vida a Timor-Leste.

ASP // JPS
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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