quinta-feira, 30 de março de 2017

Sampaio admite que Portugal "falhou completamente" missão em Macau

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Lisboa, 29 mar (Lusa) -- O antigo Presidente da República Jorge Sampaio admite o sentimento de que Portugal "falhou completamente" a sua missão em Macau e nem sequer lá deixou "grandes marcas", como o ensino da língua portuguesa.

No segundo volume da sua biografia política, da autoria do jornalista do Expresso José Pedro Castanheira, o ex-chefe de Estado considera, contudo, que "não podia ter feito mais" pelo território, então sob administração portuguesa, e aponta críticas ao último governador, Vasco Rocha Vieira.

"É verdade que o nosso sistema foi mais brando que o de Hong-Kong, mas tive sempre o sentimento de que falhámos completamente a nossa missão. No entanto, eu não podia ter feito mais. Só eu sei o que sofri, literalmente. Dei uma luta de morte, apenas por razões de patriotismo e de alguma decência, para fazer as coisas bem feitas...", assume o ex-Presidente.

No capítulo intitulado "O adeus de Macau ou o fim do império", que ocupa 44 das mais de mil páginas do livro, Sampaio admite que, em Macau, sempre teve "a sensação de que estava na China com portugueses".

"Aquilo era China e Portugal não deixou lá grandes marcas -- e as que deixou foi a Chima que teve mais interesse em conservar e mostrar. Se tivemos alguma missão em Angola ou em Moçambique, ali qual foi", interroga-se no livro.

O ex-Presidente admite também que nunca gostou de Macau, apesar de ter apreço os macaenses.

"Gostei muito de conhecer os macaenses, mas nunca gostei de Macau. Em 500 anos nem ao menos conseguimos ensinar português e ficámos com a fama de tipos que foram para lá enriquecer", sublinha o antigo chefe de Estado, acrescentando: "Não tenho a mais pequena prova contra ninguém, mas tinha a noção do que ia acontecendo".

Jorge Sampaio aponta também críticas do último governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, no cargo desde 1991 (sucessor de Carlos Melancia) e que chegou a ser apontado como um bom candidato presidencial contra si, nas eleições de 1996, numa altura em que Cavaco Silva mantinha o tabu sobre a entrada na corrida a Belém.

"Nos primeiros anos [em Macau, Rocha Vieira] fez o que quis, usou aquilo para fazer uma promoção gigantesca e toda a gente diz que o objetivo era Belém", refere no livro.

A passagem mais crítica diz respeito à criação da Fundação Jorge Álvares por parte do antigo governador, à "revelia" do Presidente. O comentário do ex-Presidente terá sido tão forte, quando soube que o assunto tinha avançado, que "não pode ser transcrito" para o livro de José Pedro Castanheira.

Antes da transição, Sampaio afirma ter dito "de dedo em riste, senhor governador: assim não há Fundação Jorge Álvares" e prossegue: Rocha Vieira "agiu com má-fé. Tinha instruções para não o fazer e fez".

Outra questão que suscitou a críticas para o então governador foi o arriar da bandeira no Palácio da Praia Grande, o símbolo da administração portuguesa.

"A história da bandeira foi ridícula: estudada ao milímetro e feita a uma hora em que nós não estávamos", acusou.

A questão do discurso na Universidade de Macau, em fevereiro de 1999, quando optou por retirar a referência mais crítica à Indonésia, tornando-se num alvo de críticas generalizadas, é também apontada na biografia.

Jorge Sampaio revela que foi Rocha Vieira quem lhe pediu para retirar a passagem crítica da Indonésia, ocupante de Timor-Leste, para não hostilizar um aliado da China.

"Quando rebentaram as críticas, não abriu a boca, deixou-me debaixo de fogo. Foi sempre assim", acusa o ex-Presidente.

No livro, Jorge Sampaio critica também o executivo liderado por António Guterres, que considera ter prestado "pouca atenção a Macau".

"Andei sempre atrás do Governo para saber como estavam as coisas", salienta.

Ainda no livro, o ex-Presidente admite que nunca percebeu a vontade do seu conselheiro Manuel Magalhães e Silva em suceder a Rocha Vieira como governador de Macau, embora considerando que "foi melhor assim", para não ficar "debaixo de fogo" por ser um dos da sua "trupe".

JPS // PJA
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