quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Criação de força de segurança do Partido Democrático timorense causa polémica

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Díli, 21 fev (Lusa) - A criação pelo Partido Democrático (PD) timorense de uma força privada de segurança, a Guarda Democrática, que acompanhará as ações de campanha e garantirá segurança nos espaços do partido, está a suscitar críticas em Timor-Leste.

Nos últimos dias, a direção do PD, encabeçada pelo secretário-geral Mariano Sabino, deu posse a dezenas de elementos da Guarda Democrática, medida que suscitou aplausos de apoiantes do partido, mas também muitas críticas nas redes sociais.

Os elementos da Guarda Democrática apresentam-se com fardas que se assemelham às das forças de segurança, de cor azul, a cor do partido, e com cobre-nucas também azuis, ambos decorados com a bandeira do PD.

Lurdes Bessa, uma das vice-presidentes do PD, explicou à Lusa que a iniciativa pretende responder a um "problema geral de Timor-Leste": "o elevado número de jovens que não tem nada para fazer, não tem qualificações ou ferramentas nas mãos".

"Chama-se Guarda Democrática, e não saberia que outro nome lhe dar. Estará aí para garantir que os trabalhos do PD decorrem com normalidade, a segurança durante os debates e nos espaços que o PD tem atualmente", afirmou.

Longuinhos Monteiro, ministro do Interior, admitiu à Lusa estar preocupado com a notícia, explicando que já deu instruções ao comandante geral da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL) para obter mais informação sobre o grupo.

"Queremos saber qual a função, o estatuto e o que fazem. Porque a lei dos partidos políticos não [lhes] permite (...) criarem o seu próprio corpo de segurança para as atividades partidárias", sublinhou.

Longuinhos Monteiro quer saber exatamente qual o papel da Guarda Democrática na campanha eleitoral, explicando que a PNTL é que garante a segurança, não sendo útil criar "guardas como estas que possam ser depois sujeitos de perturbações que possam ocorrer".

"Temos de ter um esclarecimento bem claro para justificar isto, senão teremos de tomar medidas para não autorizar este tipo de coisas. A nossa lei de defesa e segurança interna não tem espaço para a criação de grupos do género - e não quero utilizar as palavras paramilitares - de uma segurança partidária", considerou.

Mari Alkatiri, secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) foi uma das vozes mais críticas da medida, questionando a legalidade do grupo em declarações à Lusa.

"Trata-se de um grupo do partido que anda fardado, que faz treino tipo militar, que cumprimenta com uma saudação de tipo neonazi e faz juramento com o braço estendido, a fazer lembrar a mocidade portuguesa dos meus tempos de juventude", disse à Lusa.

Considerando que "militarizar uma organização juvenil de um partido é ilegal", Alkatiri disse que é essencial uma investigação e uma "tomada de posição clara" sobre o assunto, considerando que é "mau sinal" o aparecimento do grupo em vésperas de eleições.

Instada a comentar as críticas, Lurdes Bessa rejeita a comparação da Guarda com as forças políticas da Indonésia e até com as milícias que atuaram em Timor-Leste.

"Cada um compara com o que lhe for mais conveniente. Tenho ouvido críticas e até posso entender, mas não é essa a intenção", explicou.

Os elementos da Guarda Democrática, explicou, estarão também "disponíveis para fazer intervenção a nível social, em casos de desastre natural, por exemplo", ganhando assim "um pouco de reconhecimento e responsabilidade".

Críticos da decisão do PD comparam a medida com a prática comum na indonésia das 'satgas', as forças de segurança dos partidos políticos que se tornaram, segundo vários especialistas, intervenientes não regulados na segurança nacional.

Convocados para ações partidárias e ações sociais, como a distribuição de alimentos, as 'satgas' têm, em muitos casos, acabado por se tornar elementos associados a militarismo e violência, continuando a ser legitimados apenas pela sua relação com as forças políticas.

Estudos conduzidos sobre a ação das 'satgas' na Indonésia notam, por exemplo, o seu envolvimento em atividades ilegais, a concorrência entre unidades de vários partidos e até casos de ataques a jornalistas ou opositores políticos.

ASP // FPA
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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