domingo, 12 de março de 2017

Timor-Leste precisa de Presidente "humilde" e de Governo "realista" - chefe de Estado

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Díli, 10 mar (Lusa) - Timor-Leste precisa de um Presidente que seja "humilde", dê atenção à cidadania e não deixe o Governo esbanjar recursos, e de um executivo consciente da situação real do país, afirmou hoje o chefe de Estado.

Em entrevista à Lusa e sem querer referir-se em concreto a qualquer candidato ou partido, Taur Matan Ruak traçou assim o perfil do Presidente que considera dever ser eleito a 20 de março e do Governo que sairá das legislativas de julho.

"Um presidente humilde que dê atenção aos nossos cidadãos e que seja um elemento que equilibra e não deixa o Governo usar abusivamente o seu poder para esbanjar os nossos recursos", afirmou. "Um Governo realístico, que se baseia não em expetativas mas na realidade do dia-a-dia do povo", disse ainda.

Perfis que, explica, são essenciais num cenário em os jovens com menos de 25 anos, a maioria da população, são "muito mais exigentes" e "já não têm paciência para aturar tudo", querendo soluções práticas para os seus problemas: "querem água, escolas, emprego".

Num momento de "natural" transição geracional em Timor-Leste - este ano votam os primeiros jovens nascidos já depois da ocupação indonésia (que terminou em 1999), Taur Matan Ruak considera que é legítimo que velhos e novos tenham aspiração mas insiste que a sua geração e a anterior não podem ser obstáculos.

"A maioria da população é jovem. São uma geração muito exigente e se não os cuidarmos a nossa geração vai ser considerada como a geração que está obstruir, a obstaculizar o avanço das outras gerações e eu tenho medo disso", afirmou.

"Fala-se em inflexibilidade psicológica, a maneira de pensar e o comportamento. É muito difícil mudar. Mas se não nos adaptarmos somos considerados obstáculos", referiu.

Sobre si próprio diz que não é nem da geração dos jovens mas rejeita que seja da geração mais velha que ainda está ativa em posições de liderança, homens como Xanana Gusmão, José Ramos-Horta ou Mari Alkatiri, de quem em média tem cerca de 10 anos de diferença.
"Eu não faço parte dessa geração mais velha. Porque quando eles eram líderes eu era soldado a transportar munições", disse.

Numa entrevista à Lusa em jeito de balanço dos cinco anos de mandato, que termina a 20 de maio, Taur Matan Ruak disse que cumpriu os seus objetivos, focando grande parte da sua ação no diálogo com a população, visitando todo o país para envolver os timorenses no processo de desenvolvimento, procurando apoiar o Governo a melhorar o seu serviço aos cidadãos e a reduzir a burocracia.

Presidiu numa altura de mudança de Governo, que deixou de ser liderado por Xanana Gusmão (o V Governo Constitucional) e passou, em janeiro de 2015, a ser liderado por Rui Maria de Araújo (VI Governo) e considera que o segundo fez melhor trabalho que o primeiro.

Esteve "um bocadinho melhor organizado" merecendo notas positivas a prestação de serviços e uma maior aproximação do Estado aos cidadãos, mas permanecendo ainda "lacunas e deficiências que podem ser melhoradas".

Taur, que visitou praticamente todo o país, disse que encontrou uma população "muito abandonada" e um Governo "praticamente confuso, a saber o que quer mas não a saber o que fazer para lá chegar".

Como exemplo do que encontrou quando começou a visitar o país e que demonstra o que diz ser a desorganização do Governo, Matan Ruak diz que o executivo "não sabia que mais de 100 mil crianças, em 2014, estavam sentadas no chão nas escolas".

Ou então que de mais de 200 acordos, protocolos e memorandos de entendimento assinados com vários países, "apenas tinham sido implementados 20 e tal".

Assuntos que levantou durante a sua presidência, com criticas à ação governativa, mas que considera "não tiveram compreensão da parte do Governo e do parlamento" com quem diz discordar sobre o modelo de desenvolvimento do país.

"O que fiz foi chamar a atenção para as necessidades básicas da população. Uma coisa é investir em mega projetos, outra coisa é responder às necessidades básicas da população, como água e saneamento", explica.

"Dos 17 sucos que visitei em Dili, só quatro é que não levantaram problemas sobre abastecimento de água. Os restantes levantaram todos estes problemas. E no resto do país o mesmo", exemplifica.

Taur Matan Ruak termina o seu mandato a 20 de maio, dia em que se cumprem 15 anos da restauração da independência de Timor-Leste e em que tomará posse o seu sucessor, eleito de entre os oito candidatos atualmente em campanha.

ASP // JPS
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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