sexta-feira, 19 de maio de 2017

Óbito | MÁRIO CARRASCALÃO, DEFENSOR DE CONSENSOS E DIÁLOGO

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Defensor de consensos e diálogo

Díli, 19 mai (Lusa) - Mário Carrascalão, que hoje morreu aos 80 anos em Díli, não suscitava avaliações consensuais entre os timorenses, mas trabalhou grande parte da vida pelos consensos, abrindo até a porta ao diálogo entre a resistência e os ocupantes indonésios.

Líderes timorenses recordaram a voz de denúncia sobre a situação no território, mesmo enquanto Governador nomeado por Jacarta (1982 a 1992), e o papel interventivo que permitiu a primeira abertura de Timor-Leste, levando muitos timorenses a estudar em universidades indonésias.

"Salvou centenas de vidas, forçou a abertura de Timor-Leste ao mundo, conseguiu que milhares de jovens timorenses tivessem uma oportunidade única de se formarem. Mas talvez mais importante, conseguiu convencer o comando militar Indonésio em Timor-Leste a dialogar com Xanana", escreveu sobre si, em outubro de 2015, o ex-Presidente José Ramos-Horta.

Vítima de um ataque cardíaco, Carrascalão morreu hoje em Díli, 24 horas depois de ter recebido das mãos do Presidente timorense, Taur Matan Ruak, a mais alta condecoração do Estado, o Grande Colar da Ordem de Timor-Leste.

As imagens da entrega da condecoração dominam hoje as redes sociais em Timor-Leste, onde se sucedem os comentários de pêsames de familiares, amigos, dirigentes timorenses e cidadãos comuns, que ensombram os festejos do 15.º aniversário da restauração da independência, no sábado.

Carrascalão, que nasceu em Venilale em 1937, dedicou, como muitos dos 11 irmãos, grande parte da vida à política timorense. Já depois da independência fundou o Partido Social Democrata timorense e chegou a ser vice-primeiro-ministro no IV Governo constitucional, liderado por Xanana Gusmão.

Terceiro Governador nomeado pela Indonésia para Timor (de 18 de setembro de 1983 a 18 de setembro de 1992), recordou em entrevista à Lusa, em 2015, os encontros que manteve com Xanana Gusmão em Lariguto (1983) e Ariana (1990), abrindo a porta ao primeiro diálogo com a resistência.

"Encontrei-me com ele enquanto comandante das Falintil [Forças Armadas de Libertação Nacional de Timor-Leste]. Se se apresentasse como comandante da Fretilin [Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente] eu não me sentaria à mesma mesa. Senti que ele, nessa altura, também me representava e outros como eu. Quando conversava com Xanana Gusmão estava a conversar com alguém que era representante do braço armado do povo timorense, do qual a UDT [União Democrática Timorense] já fazia parte", explicou.

Carrascalão entrou tarde na escola e fez três anos num, sendo depois dos primeiros alunos do Liceu Dr. Francisco Machado, hoje uma das alas da Universidade Nacional Timor Lorosa'e. Terminou o 5.º ano e. porque em Timor não havia na altura como continuar o ensino, foi até Lisboa terminar o secundário, no Liceu Camões.

Foi dispensado do exame de aptidão e entrou diretamente no Instituto Superior de Agronomia onde se formou em silvicultura, terminando o curso com 19,5 valores e uma tese que foi o primeiro estudo de sempre feito sobre o pinheiro manso português.

Regressado a Timor-Leste, assumiu o cargo de chefe dos serviços de agricultura, funções que ocupava quando em 1974, juntamente com Domingos Oliveira, César Mouzinho, António Nascimento, Francisco Lopes da Cruz e Jacinto dos Reis, fundou a UDT.

Depois do golpe da UDT, do contragolpe da Fretilin e da curta guerra civil, Carrascalão refugiou-se em Atambua, seguindo depois para Jacarta. Ingressou na diplomacia indonésia em 1977.

Numa longa entrevista com a Lusa, em novembro de 2015, Mário Carrascalão lembrou esse período, e cconsiderou que a pressão sobre Suharto [Presidente da Indonésia entre 1967 e 1998] para abrir Timor-Leste e a postura neutra que manteve enquanto governador, permitindo manter o cargo e ajudar "muitos" timorenses, contribuíram para a independência do país.

"Enquanto estive aqui como governador não se pode dizer que estive do lado dos independentes ou dos integracionistas. Tive que me manter sempre neutro porque se fosse nitidamente pró-independência já sabia de antemão que os indonésios me sacavam do lugar porque não permitiram que atuasse contra eles", afirmou.

"Pensei mais no futuro. O mundo não podia continuar a ignorar o que se passava em Timor. Pedi a Suharto para abrir Timor. Max Stahl nunca teria entrado em Timor se eu não tivesse pedido ao Suharto para abrir" o território, disse.

Um jogo de cintura que foi possível porque conseguiu a confiança dos indonésios, que precisavam do governador para limpar a imagem dos antecessores, ferranhos apoiantes da integração.

"Criei uma imagem que favoreceu a Indonésia e o que eu pedia era aceite", disse.
Esta sua postura e o cargo que ocupava, não lhe mereceram louvores de todos e para muitos timorenses, como o próprio admitiu, era visto como traidor, colaborador do regime ocupante.

"A minha ação aqui em Timor é interpretada de uma forma. Lá fora fui sempre visto como um traidor, um colaborador de Suharto. Para alguns convinha criar o inimigo fictício. Mas aqui em Timor era um dos daqui e tudo fazia para poder salvar este ou aquele e para ajudar", disse Carrascalão sobre esse período.

Mário Carrascalão afirmou que só mesmo na sua família sabiam o que estava a fazer e que os timorenses que estavam em Timor na altura reconheceram esse papel, ainda que nem todos "os lá de fora" pensem assim.

"Inclusive na minha família havia pessoas que estavam reticentes, que pensaram duas vezes em utilizar o meu apelido para não ser confundidos com o Mário Carrascalão. Também houve disso", admitiu.

O velório de Mário Carrascalão realiza-se durante o dia, em Díli, não sendo ainda conhecidos pormenores sobre o funeral.

ASP // EJ

Presidente do Parlamento timorense lamenta perda inesperada

Díli, 19 mai (Lusa) - O presidente do Parlamento Nacional timorense lamentou hoje a "triste e inesperada" morte do dirigente histórico Mário Carrascalão, recordando o seu trabalho em prol da independência de Timor-Leste.

"Infelizmente, Timor-Leste perdeu um dos seus mais ilustres filhos, mais um filho querido que tudo fez para que fôssemos independentes", disse Adérito Hugo da Costa numa mensagem enviada à Lusa.

"Mário Viegas Carrascalão foi um homem reconhecidamente íntegro e honesto, que desde cedo se comprometeu com a luta pela independência de Timor-Leste", afirmou no texto.

Hugo da Costa recordou que foi no período em que Mário Carrascalão exerceu as funções de governador "que se verificou uma grande abertura do território a jornalistas estrangeiros e à possibilidade de estudantes timorenses frequentarem universidades fora de Timor-Leste".

Isso permitiu, recorda o presidente do Parlamento, "alargar o raio de ação da luta e, paralelamente, permitiu melhor qualidade de formação dos estudantes timorenses".

"Foi um destacado membro da Assembleia Constituinte e mostrou-se sempre disponível para colaborar em tudo o que fosse necessário para a consolidação de Timor-Leste, tendo chegado a desempenhar funções de vice-primeiro-ministro", disse.

Mário Viegas Carrascalão morreu hoje em Díli, aos 80 anos, ao que tudo indica vítima de um ataque cardíaco que sofreu quando conduzia o seu carro pessoal no centro da capital timorense.

O dirigente histórico timorense, que foi governador nomeado pela indonésia e vice-primeiro-ministro no IV Governo constitucional, liderado por Xanana Gusmão, foi condecorado na quinta-feira com o Grande Colar da Ordem de Timor-Leste pelo chefe de Estado Taur Matan Ruak, que termina hoje o seu mandato.

A morte de Carrascalão está a ensombrar os festejos do 15º aniversário da restauração da independência de Timor-Leste que se cumpre no sábado, dia em que toma posse o Presidente eleito Francisco Guterres Lu-Olo.

ASP // FPA

Capoulas Santos destaca figura marcante

Díli, 19 mai (Lusa) - O ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural português considerou que Mário Carrascalão foi uma "figura marcante" da história recente de Timor-Leste, cujo percurso político é revelador do espírito de reconciliação da sociedade timorense.

"Ele é uma figura marcante da história recente de timor não só pelo percurso político, controverso com certeza, mas que por ironia do destino acabou condecorado pelo atual PR praticamente um dia antes da sua morte", disse Capoulas Santos à Lusa em Díli.

"É um sinal revelador do espirito de reconciliação da sociedade timorense", disse, recordando que Mário Carrascalão, que morreu hoje aos 80 anos, foi "governador indonésio e depois membro do Governo de Timor independente".

"Foi também um técnico ligado á área que tutelo em Portugal e por cuja memória tenho pessoalmente respeito. Em nome do Governo português quero transmitir um sentimento de pesar à sua família", disse.

Capoulas Santos falou à Lusa em Díli onde se encontra em representação de Portugal para a tomada de posse do Presidente eleito, Francisco Guterres Lu-Olo, que ocorre às 00:00 de sábado, hora local.

Mário Viegas Carrascalão morreu hoje em Díli, aos 80 anos, ao que tudo indica vítima de um ataque cardíaco que sofreu quando conduzia o seu carro pessoal no centro da capital timorense.

O ex-vice-primeiro-ministro estudou no Instituto Superior de Agronomia em Portugal, onde se formou em silvicultura, terminando o curso com 19,5 valores e uma tese que foi o primeiro estudo de sempre feito sobre o pinheiro manso português.

Regressado a Timor-Leste, assumiu o cargo de chefe dos serviços de agricultura, funções que ocupava quando, em 1974, juntamente com Domingos Oliveira, César Mouzinho, António Nascimento, Francisco Lopes da Cruz e Jacinto dos Reis, fundou a União Democrática timorense (UDT), o primeiro partido timorense.

ASP // VM

Padre Vítor Melícias destaca "generosidade e transversalidade"

Lisboa, 19 mai (Lusa) -- O padre Vítor Melícias lamentou hoje a morte do ex-vice-primeiro-ministro Mário Carrascalão, que morreu hoje aos 80 anos em Timor-Leste, destacando a sua "generosidade, transversalidade e a sua importância na história" do país.

"É com profunda emoção que acabo de saber da morte desse grande homem de Timor, de Portugal e do mundo. Mário Carrascalão (...) serviu o seu povo com grande amor e sentido de responsabilidade nas circunstâncias mais difíceis, que serviu sob o domínio indonésio, em que inclusivamente assumiu funções oficiosas num momento de luta pela independência", disse à Lusa o padre Vítor Melícias, que foi comissário nacional para o Apoio à Transição em Timor-Leste em 1999.

Mário Viegas Carrascalão morreu hoje em Díli, aos 80 anos, ao que tudo indica vítima de um ataque cardíaco que sofreu quando conduzia o seu carro pessoal no centro da capital timorense.

Em declarações hoje à Lusa, o padre Vítor Melícias, que privou e trabalhou com Mário Carrascalão enquanto comissário nacional, salientou também que o ex-vice-primeiro-ministro timorense "serviu o seu país com grande sentido de responsabilidade, já depois da independência".

"É um homem quase transversal na luta da história exemplar e extraordinária deste povo pela independência e um nome que até me emociona evocar", disse.

DD // SB
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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