segunda-feira, 6 de março de 2017

Fatuk Mutin, o 'ex-padre revolucionário' que quer ser Presidente

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Díli, 06 mar (Lusa) - A boina preta com estrela dourada que Fatuk Mutin tem sobre o joelho dá a tónica revolucionária ao 'quase padre' que trocou a formação religiosa pela política e quer agora ser "um presidente para o povo" timorense.

"Nós fomos formados nesses dois aspetos: religião e política. Na altura a escolha era ser padre porque a igreja católica era o único defensor do povo. Ser padre era ser defensor do povo, era ser político", explica António Maher Lopes, (conhecido como Fatuk Mutin ou Rocha Branca), numa entrevista à Lusa.

Antonio Maher Lopes (- um dos oito candidatos às eleições presidenciais de 20 de março em Timor-Leste e o primeiro no boletim de voto - passou de uma formação maioritariamente religiosa para o papel de ativista e depois formador político.

"A religião católica ensinou-nos bastante, para a formação integral e humana deste povo. E claro que estas são as bases fundamentais, o que tem a corelação mais próxima com a nossa tradição. Em que se cria uma coesão entre o individuo e as instituições criadas e estabelecidas no seio deste povo. Estas são as bases fundamentais que podem ser alicerce da edificação do Estado", explica.

Diz-se "um ex-padre revolucionário" que quer ajudar a fazer "uma revolução mental, adequada para a formação de uma sociedade justa e fraterna". Uma revolução sem sangue, pacífica, "em que o povo se sinta livre" mas sem guerra e armas porque isso "já não faz sentido" e os timorenses já estão "fartos disso".

Depois do secundário no Seminário Menor de Nossa Senhora de Fátima em Díli e do Externato de São José continuou os estudos num seminário diocesano e no Instituto Superior de Filosofia e Teologia Widya Sasana, em Java, na Indonésia: "queria ir para Portugal, mas não era possível".

Depois do massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, junta-se com um grupo de estudantes e uma semana depois organiza a o primeiro protesto contra a Indonésia em Jacarta. "Eram 72 pessoas. Setenta fomos capturados. Dois safaram-se. Estive detido na polícia em Jacarta e fiquei preso até março de 1992. E quando saí e já estava envolvido no processo não deixei nunca mais", recorda.

A conversa com a Lusa decorre na sede da campanha, praticamente ao lado da Catedral de Díli, onde um grupo de jovens voluntários prepara o material de campanha: alguns milhares de cartazes, autocolantes e um folheto com a biografia e o manifesto político.

Libertar o povo, criar uma assembleia popular e fomentar o estado participativo são os pilares de um discurso político que quer combater a corrupção e nepotismo, lutar contra "o regime capitalista crónico" e acabar com a cooperação de agências internacionais.

Desde a independência, em 2002, tem-se dedicado à vida política, percorrendo vários pontos do país "para estar junto do povo a dar formação política e a trabalhar", referindo que trabalhou na formação da cidadania "na perspetiva de libertar o povo".

"É preciso porque o povo não é uma ovelha. É um ser que é preciso educar, explicar cidadania e o direito cívico. É preciso envolver o povo no processo democrático", afirmou.

"É a festa da democracia mas queremos que esta festa seja viva, que o povo expresse a supremacia do poder. Se não o povo é apenas a ovelha atrás do pastor. Que o povo seja o sujeito deste processo e manifeste o poder real delegado aos seus líderes. Para que os líderes não se sintam que são alguém. Nós não somos nada, O povo merece este respeito", insiste.

Declarando-se "servidor, orientador e guia do povo" e empenhando em educar para "o sentido de Nação e de Estado", Fatuk Mutin considera que o próximo chefe de Estado dever ser um homem que envolva os timorenses no desenvolvimento do país.

Xanana Gusmão, primeiro Presidente pós-independência, fez o "equilíbrio político", sendo uma figura do interior com um Governo "liderado por pessoas do exterior".

O seu sucessor, José Ramos-Horta "colocou Timor-Leste no mundo em pé de igualdade com qualquer outro país" e o atual chefe de Estado, Taur Matan Ruak "quis aproximar-se do povo, levar o Estado à base da sociedade".

"Eu se for presidente terei estas três bases fundamentais para incentivar, criar o sentido de estado, envolver o povo para participar inteiramente no processo de construção do Estado", explicou.

Um compromisso "de libertar o povo" e de "libertar a consciência esmagada pelo obscurantismo intelectual, o obscurantismo estrutural que ainda existe" mas em que considera que a igreja pode ser um bom parceiro de formação.

Fatuk Mutin declara-se candidato independente mas confirma o apoio do Partido Socialista de Timor (PST), força política que formou e de que ainda é membro "não ativo", e também do Movimento de Libertação Popular do Povo Maubere (MLPPM).

E explica ter a base de apoio em Ainaro, de onde era o pai, e em Díli, de onde é natural a mãe e onde todos o conhecem "desde a criancice até ao envolvimento no processo de luta" e aos dias de hoje.

Numa relação 'de facto' com uma portuguesa, Fatuk Mutin diz que ainda não casaram porque "quem casa quer casa" e isso ainda não é possível ter.

ASP // PJA
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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