quarta-feira, 8 de março de 2017

Ana Gomes lamenta que Lusitânia Expresso não tenha forçado incidente com Indonésia

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Lisboa, 08 mar (Lusa) -- A antiga embaixadora em Jacarta Ana Gomes considera que a missão do navio Lusitânia Expresso, há 25 anos, não conseguiu mobilizar a atenção internacional para a causa timorense, defendendo que os ativistas deveriam ter forçado um incidente com a Indonésia.

No dia 11 de março de 1992, a marinha indonésia impediu o 'ferry-boat' Lusitânia Expresso de avançar em direção a Timor-Leste, onde os participantes na missão "Paz em Timor" pretendiam chegar para depositar flores no cemitério de Santa Cruz, em Díli, homenageando as mais de 200 vítimas do massacre perpetrado pelas forças indonésias em novembro anterior.

A bordo, seguiam mais de uma centena de pessoas, incluindo o antigo Presidente português Ramalho Eanes, estudantes de 23 países, e 25 jornalistas portugueses e 34 estrangeiros.

A iniciativa, recordou a primeira embaixadora portuguesa em Jacarta, "foi saudável e ajudou a mobilizar a sociedade portuguesa", mas não teve repercussão no resto do mundo.

"Não consigo deixar de pensar que poderia ter tido mais impacto se tivesse havido mais ousadia", disse à Lusa Ana Gomes.

"Mesmo que os indonésios se atrevessem a tomar uma medida repressiva, isso só teria beneficiado a causa de Timor. É difícil dizer isto, mas quando nos metemos numa aventura dessas, é para desafiar até ao fim", considerou a antiga diplomata.

A atual eurodeputada recorda que a causa timorense mobilizou a opinião pública portuguesa, sublinhando que Portugal tinha "uma responsabilidade histórica dupla" para com Timor-Leste.

Por um lado, como antiga "potência colonial, bastante negligente" e pelo "comportamento miserável" que teve na descolonização, em 1975, o mesmo ano em que a Indonésia anexou o país como a sua 27.ª província.

Além disso, dias antes do massacre de Santa Cruz, deputados portugueses cancelaram uma visita que estava prevista a Timor-Leste.

"À última, Portugal recuou miseravelmente. Miseravelmente. Tinha de mandar a missão, os estudantes timorenses estavam à espera para fazer manifestações", uma forma de chamar a atenção internacional para a ocupação indonésia, criticou Ana Gomes.

Na opinião da ex-diplomata, o que realmente captou a atenção da opinião pública foi o massacre de Díli, a 12 de novembro de 1992, que foi filmado pelo jornalista Max Stahl, e em que se vê timorenses a rezarem em português.

"Durante anos e anos e anos ninguém falava de Timor. Muitos diplomatas e políticos diziam que o tempo resolveria, para não se resolver", afirmou, destacando que se tratava de um problema "de direitos humanos e uma questão de honra para Portugal".

Os 25 anos da viagem do navio Lusitânia Expresso são assinalados este sábado em Lisboa, com a presença de antigos participantes na missão.

JH.
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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