segunda-feira, 30 de abril de 2018

Xanana Gusmão diz que críticas são para “aclarar algumas coisas"

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O líder da oposição timorense, Xanana Gusmão, defendeu hoje os comentários críticos que tem feito na campanha sobre outros líderes políticos e o partido no Governo, a Fretilin, insistindo que pretende "aclarar algumas coisas".

Em entrevista à Lusa, o líder da Aliança de Mudança para o Progresso (AMP) disse que nas campanhas desde 2007 nunca atacou ou respondeu a ataques, mas que, na campanha para as legislativas de 12 de maio, foi "forçado a aclarar algumas coisas".

"Não dava para não falar. Inclusive o meu próprio partido dizia: estás a esconder alguma coisa? Será que estão a dizer a verdade? Tens que falar. No início não queria mas temos equipas que estão a acompanhar e eu ia vendo os comentários. Quando eles pararem eu paro", afirmou na entrevista, em Pante Macassar, no enclave de Oecusse-Ambeno.

Responsáveis da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) rejeitam ter feito provocações e insistem que nem sequer estão a responder às repetidas críticas ao partido e aos seus líderes, que têm dominado a campanha da AMP.

As críticas têm-se dividido, no essencial, em dois aspetos: referências ao tema das fronteiras marítimas e do Mar de Timor e ao passado da luta, nomeadamente o que ocorreu em torno à Fretilin no país na primeira década de ocupação indonésia.

Em relação às negociações sobre o Mar de Timor, Xanana Gusmão disse que começou a usar a campanha para explicar aspetos relacionados com o tema porque "a outra parte provocou", referindo-se ao ex-Presidente e atual ministro de Estado José Ramos-Horta.

O líder partidário disse que era necessário esclarecer qual tinha sido a sua ação no processo que levou ao tratamento de delimitação de fronteiras, assinado a 06 de março com a Austrália, e o acordo anteriormente em vigor, negociado por Mari Alkatiri e José Ramos-Horta, conhecido como CMATS.

Era preciso "compreender que o CMSTAS tinha uma cláusula que dizia que durante 50 anos não se discutia [as fronteiras] e depois dos 50 se as empresas dissessem que ainda havia muito gás para retirar, também não", afirmou.

Xanana Gusmão recordou que quando o CMATS estava a ser negociado - era então Presidente da República - pediu a Mari Alkatiri e a Ramos-Horta para incluir nas negociações a questão da fronteira e do gasoduto para Timor-Leste.

Prometeu depois do resultado "chamar a imprensa e dar o seu apoio oficial" mas depois, com um telefonema inesperado "num jogo de futebol", com José Ramos-Horta, confirmou que não tinham falado da fronteira e que o acordo estava assinado.

Insiste que no regresso o assunto foi referido numa primeira reunião semanal com o então primeiro-ministro, Mari Alkatiri, que duas semanas depois lhe recordou a promessa da declaração pública.

"É verdade, disse-lhe. Mas o senhor primeiro-ministro se se lembra, eu pedi que quando regressassem me informassem se falaram sobre a fronteira e sobre o gasoduto para Timor. O primeiro-ministro Alkatiri não disse nada, despediu-se e eu não fiz nenhuma declaração", contou.

Questionado pelo facto de ter assinado o acordo, Xanana Gusmão disse que tinha poderes limitados, já que qualquer lei vetada seria devolvida com o apoio de dois terços do parlamento.

Por isso, disse, esperou e iniciou o longo processo para "anular o CMATS" - o que ocorreu em 2017 - e avançar com a conciliação compulsória que permitiu levar ao tratado de fronteiras marítimas assinado no passado dia 06 de março.

Xanana Gusmão rejeitou ainda os argumentos de que sem a negociação de Mari Alkatiri no Tratado do Mar de Timor de 2002 e no CMATS de 2006, Timor-Leste não teria dinheiro.

Considerou que isso representa uma "falta de memória de muitos" que o deixa "extremamente preocupado", afirma que também participou no processo do primeiro tratado e que Mari Alkatiri foi ajudado por altos funcionários da ONU.

"Não me venham dizer que foi ele que conseguiu. Se tivesse sido ele a conseguir não teríamos começado a receber dinheiro logo em 2005. Antes já estava tudo pronto. Não foi em dois anos que começaram a construir", disse.

"Se ele conseguiu o 90-10 [a partilha de receitas entre Timor-Leste e a Austrália] é diferente. Mas não pode dizer que ele é que conseguiu aquilo tudo. Não foi ele. Eu estava lá direta ou indiretamente envolvido", insistiu.

Admitindo que em 2002 pensar na questão da fronteira “era impossível", Xanana Gusmão diz que o problema não é com o Tratado do Mar de Timor, mas sim com o subsequente acordo.

"O CMTAS não quebrou toda aquela insistência nossa sobre a fronteira. O CMATS parou tudo e decidiu, não falem mais de forneiras. O CMATS era inaceitável. Tão inaceitável, que comecei a preparar o processo levou à conciliação", afirmou.

Lusa | em SAPO TL
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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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