quinta-feira, 4 de abril de 2019

Indonésia acolhe a 17 de abril uma das maiores eleições do mundo

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Jacarta, 03 abr (Lusa) -- Nas atafulhadas ruas de Jacarta, onde o caótico trânsito se adensa na época das chuvas, proliferam os capacetes verdes das motas de transporte, que circulam ao lado dos multicoloridos cartazes e bandeiras das eleições nacionais de 17 de abril.

Tal como há cinco anos, os rostos dominantes nos pósteres de campanha são os dos dois principais candidatos presidenciais: de um lado o atual chefe de Estado, Joko Widodo, quinto Presidente desde a queda do antigo ditador Suharto, do outro o ex-general das Forças Especiais e ex-genro de Suharto, Prabowo Subianto.

As sondagens indicam uma ligeira vantagem para Joko Widodo, numa campanha onde se mistura de tudo, desde economia a educação, ao debate do secularismo 'versus' o conservadorismo ou até as alterações climáticas e a política externa.

Até Timor-Leste já foi falado, de passagem, num dos debates presidenciais, com Prabowo a referir-se ao referendo de há 20 anos - ainda que o seu passado como militar nas Kopassus, as Forças Especiais indonésias, seja praticamente ignorado.



A dimensão do processo eleitoral vê-se bem pelos números: são 192 milhões de eleitores e entre eles 70 milhões, entre 16 e 20 anos, que votam pela primeira vez.

Além do Presidente e vice-Presidente, os eleitores escolhem os 711 membros das duas câmaras da Assembleia Consultiva Popular (MPR), 575 no Conselho Representativo Popular (DPR) e 136 no Conselho Representativo Regional (DPD).

Em jogo estarão ainda mais de 19.500 lugares em mais de 2.000 distritos eleitorais legislativos ao nível regional, municipal e local. Há 16 partidos concorrentes, entre eles quatro estreantes.

Widodo, 57 anos, escolheu para seu 'número dois' Ma'ruf Amin -- um intelectual e político islâmico, líder da Majelis Ulama Indonesia, a principal estrutura clerical muçulmana do país, criada na Nova Ordem de Suharto.

A dupla do atual chefe de Estado tem o apoio de nove partidos, entre eles o PDI-P da ex-Presidente Megawati Sukarnoputri, o Golkar (partido de Suharto) e o PKB, do ex-Presidente Wahid: entre si representam atualmente 60% dos lugares no atual parlamento e 62% dos votos nas últimas eleições.

Prabowo, por seu lado, tem como número dois Sandiaga Uno, atual vice-governador de Jacarta que, antes de entrar no mundo político, era um empresário de destacado perfil, com a dupla apoiada por vários partidos de menor dimensão que, entre si, representam 40% dos lugares do parlamento e 36% dos votos das eleições de 2014.

Esta é a terceira tentativa de Prabowo chegar ao Palácio Presidencial, ele que foi número dois na campanha de 2009 e rival de Jokowi em 2014, tendo na altura conseguido 46,85% dos votos contra os 53,15% obtidos pelo atual Presidente.

Na metrópole que continua a crescer a ritmo desenfreado -- a zona urbana de Jacarta acolhe 30 milhões de habitantes -- os cartazes da campanha evidenciam as opções: fotos dos candidatos e, em alguns casos, um quadrado do boletim de voto com o desenho do prego de ferro com que, por estas paragens, se exerce o direito ao voto.

No dia-a-dia da cidade, os motoristas das motas do GoJek e da Grab, as empresas de transporte com que muitos indonésios ganham o seu rendimento, serpenteiam por entre os carros, com os passageiros sentados atrás, tentando ganhar tempo no lento percurso.

"Eu uso isto para ganhar mais algum dinheiro. É preciso porque as coisas estão mais caras. Mas há muitos clientes", conta Dewi, uma motorista da Go-Jek, com o capacete por cima do hijab preto, um dos símbolos mais evidentes do crescente conservadorismo na Indonésia.

Goenwan Mohamad, hoje escritor e pintor, mas outrora jornalista e fundador da revista Tempo -- uma das primeiras que nos anos 90 do século passado desafiou a Nova Ordem de Suharto --, diz que o crescente uso do hijab mostra "uma perda de liberdade de expressão física".

"As pessoas pensam que a religião pode embelezar a alma, tornar-te até menos corrupto. Mas na prática isso não ocorre. O que se nota, sim, e é muito visível, por exemplo na forma como as pessoas se vestem, é um autocontrolo nas expressões físicas", disse à Lusa.

"Há 25 anos quase ninguém usava hijab. A liberdade de expressão física está muito mais limitada", conta à Lusa.

Por outro lado, a proliferação dos capacetes verdes de quem oferece transporte na Indonésia -- e a paralela revolução dos serviços 'online', de quase tudo, que continuam a crescer a ritmos estonteantes no sudeste asiático -- é um sinal do empreendedorismo do país.

Mas, ainda que a economia indonésia continue a crescer -- não aos 7% prometidos por Joko Widodo -- e que sejam evidentes os sinais de uma robusta classe média, as disparidades mantêm-se com muitos na sociedade a viverem em condições de total insegurança económica.

Na agenda dos debates eleitorais, por isso, figuram questões como o desenvolvimento económico nacional, a capacitação da mão de obra ou até problemas globais como as alterações climáticas, ainda que nos bastidores se viva, como explicou à Lusa o diretor do Australia Indonesia Centre, Kevin Evans, um debate entre uma visão secular e pluralista do país, de um lado, e o maior conservadorismo religioso e moral, do outro.

"As divisões políticas aqui não são baseadas em classe, a afiliação política não se decide pelo rendimento 'per capita'. Define-se sempre entre os que se agarram firmemente a uma visão de uma sociedade mais pluralista e igualitária 'versus' os que querem um maior papel da religião, no caso o Islão, uma divisão idêntica à que se pode ver na Índia, ou em Israel", disse.

Ainda assim Evans diz-se otimista, afirmando que os sinais de conservadorismo crescente duram há 30 anos e que começam a aparecer, até, sinais de "maior agitação e mobilização dos que defendem os valores tradicionais de pluralismo".

A religião está sempre presente, com Jokowi a mostrar-se mais pluralista, mas depois a escolher como 'número dois' um dos principais líderes islâmicos do país, e Prabowo a começar a relembrar que a sua mãe é cristã, mas depois a convocar uma oração coletiva em todos as mesquitas do país na manhã do próximo domingo.

Os candidatos presidenciais estão nos próximos dias em campanha em vários pontos do país, regressando a Jacarta na reta final, antes dos dois dias de reflexão e do voto.

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Publicação luso-timorense sem fins lucrativos

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